domingo, 23 de maio de 2010

ENTRElinhas


Pois era apenas
um sorriso mudo.
Uma timidez obscena,
calculada,
de uma metódica
sensualidade.

Pois era uma esquina
abstrata da vida.
Um encontro fortuito,
um desarme despojado
do que sou.

Pois era um brincar
ilegal de ocultas
palavras, de embalos
e silêncios sussurrantes;
traço fino de
múltiplas revelações.

Pois era um desejo
ânsia de um querer;
grito sutil
de ser este
por mistério.

Pois certo é:
meu corpo,
encaixe perfeito
de tuas mãos.
Me leve.
Eu te sinto.

entrelinhas

passos em falso


Passos em falso.
Tropeços.
Quedas.
Há que se errar,
Entenda.
É permitido.
Entenda.

Caminhos turvos
Vertigens,
Trôpegas pegadas:
Entenda.
Estradas de chegadas
Levam partidas
Para nunca e
Fim.
Entenda.

É fatídico.
Entenda.
Concreto chão
Que não sustenta
Deslizes.
Entenda.
Aconteceu

Esquecimento


As asas quebraram em meio ao voo alto. Caiu o pássaro ao chão. A menina veio correndo ao seu encontro. Queria fazer algo por ele, mas nada havia que se fizesse. Chorou. Ela amava aquela ave... e queria lhe emprestar as recentes asas ganhadas pela fada do dente, mas tempo não havia mais.

O pássaro a olhou antes de partir. Sentiu soltar-se a vida com a intensidade do vento nos céus... fechou os olhos em uma queixa final. E se foi.

Ela o enterrou ao lado de sua cama. E nunca mais nele pensou



E vou sem ponto ao encontro do passo que neguei. Porque o mistério, um dia, chega ao fim.

palavras "vãs"






São estes versos tão impuros
Que me encontram aflita
A rondar as horas de a ti não chegar
O que em mim lateja e não transubstância
Em palavra de sentido.

Persegue a dor da tentativa
De dizer-te o que não sai
Se não de meu olhar distante.
Prossigo tempestuosas desordens em
Vocábulos levianos que outros chamam poemas
E eu teimo: ermas vontades.

lamuria perdida



Eu sou poeta. E não creio
No que canta coração.
E vou perdida, na nota partida,
Numa lamúria; ilusão.